Paulo Franke

17 julho, 2006

Meu encontro com Victoria, filha de Charles Chaplin






Aquele sábado de inverno na maior loja de departamentos de Helsinki - onde vendemos esta revista e ao mesmo tempo recebemos doações para o Exército de Salvação (Frälsningsarmén/Pelastusarmeija) - parecia um dia menos especial do que os demais. Faltava naquela manhã algo que considero de extrema importância que é conversar com pessoas, simples conversas do dia-a-dia, explicação sobre a nossa obra ou às vezes o que poderíamos chamar de aconselhamento a pessoas com algum problema. Onde estavam as pessoas conhecidas ou mesmo novos amigos?

Um encontro importante


Então, em um dado momento, olhei para uma moça de baixa estatura, muito agasalhada, cujos olhos grandes e azuis se destacavam apesar de usar uma touca. "Você não é a Victoria, filha do Charles Chaplin?", perguntei-lhe. "Sou, sim!", respondeu-me educadamente. E como parecia que não a importunava, continuei a conversa, apresentando-me como um oficial salvacionista do Brasil trabalhando na Finlândia, terra de minha esposa, e mencionando que havia visto a divulgação de "Cercle Invisible", espetáculo que fazia com seu marido em um dos teatros da cidade de Helsinki.
Meu uniforme não lhe parecia estranho, portanto, percebendo nela uma ponta de interesse na conversa, apressei-me a dizer-lhe que de certa forma nossos pais foram "grandes amigos". E contei-lhe das festas de aniversário de nossa família na década de 50, quando meu pai projetava para os convidados principalmente os antigos filmes de Charles Chaplin. Eram momentos animados, quando a cada gesto do famoso cômico tanto os adultos em uma sala quanto as crianças em outra - separados pela tela onde os filmes eram projetados de ambos os lados - explodiam em risos. De fato, meu saudoso pai amava Carlitos e, por coincidência, faleceu no mesmo ano de 1977.
Ao nos despedirmos, sempre sorrindo bondosamente, convidou-me para assistir ao seu show. "Quem sabe depois do show a gente pode conversar um pouco mais?", sugeriu para a minha alegria.

Uma lembrança importante


Em nossa conversa não houve tempo de contar-lhe que meu pai era um episcopaliano que admirava o Exército de Salvação, organização que opera em mais de 120 países e que também atuava através de uma igreja (Corpo) e de um orfanato em nossa cidade. E ao visitar o Lar de Meninos de Pelotas, RS, era comum levar os seus filmes mudos consigo. Era a vez agora de muitas crianças pobres e órfãs assistirem as famosas comédias do Carlitos, em uma época quando a televisão ainda não chegara pelo menos no sul do Brasil. Eram momentos muito felizes e essa alegria estampava-se nos sofridos rostos de muitas delas. Carlitos fazia a festa!

Uma visita importante


Talvez Victoria olhara com certa simpatia para o meu uniforme por saber algo sobre a infância pobre de seu famoso pai que, da mesma forma como meu pai, tivera contato com o Exército de Salvação (The Salvation Army)...
Certa vez foi perguntado a uma desenhista por que na exposição de seus desenhos de igrejas londrinas, interessantes sob o ponto de vista arquitetônico, havia também incluído o humilde Corpo do The Salvation Army. "É porque Charles Chaplin o visitou", explicou.
Certa ocasião, para evitar o assédio dos fans e dos fotógrafos, Chaplin entrara sem alarde no salão do Exército em Kennington Lane enquanto a pequena banda tocava. E entregou ao oficial dirigente um generoso donativo, contando-lhe ao mesmo tempo algo de sua infância pobre. Seu pai bebera tanto que morrera cedo e sua mãe enlouquecera, tendo de ser internada em um manicômio. Dessa forma, o filho tão sensível passara as maiores privações na sua infância.
Nessa época, um dos momentos mais felizes que experimentava era ao assistir as chamadas "Horas de Alegria", promovida pelos salvacionistas, encontros infantis cheios de entusiasmo onde as crianças cantavam cancões vibrantes que acompanhavam batendo palmas. No meio de dezenas delas, um rosto que de triste ia-se transformando em alegre, pelos menos por alguns instantes: o de Charles Chaplin menino, quem sabe parecido com o de alguma criança daquele outro Lar de Meninos, décadas depois.
Quem se recorda de uma de suas comédias, "Easy Street" (Rua da Paz), e da missão cheia de pobres e bêbados tentando cantar ao acompanhamento de uma doce donzela (Edna Purviance) ao órgão, facilmente associará o ambiente ao de tantos centros de obra social do Exército de Salvação - enfocados em tantos filmes americanos - espalhados pelo mundo.
Mais tarde, Charles Chaplin deixou aquele pobre bairro londrino e foi para longe, tornando-se o célebre cômico que como nenhum outro faria o mundo rir.

Um momento importante


Enquanto eu, na primeira fileira de bancos do Teatro Savoy, assistia ao "Cercle Invisible", virei-me para a pessoa que estava ao meu lado e comentei: "Ela de fato é filha de seu pai!"
Era a terceira visita à Finlândia e o teatro lotado a cada apresentação comprovava que o casal era dono de enorme talento, não apenas atraindo público por ser ela "a filha de Chaplin".
Nos momentos finais do show comecei a questionar como aconteceria um outro rápido encontro com Victoria. Fui ao show com o meu uniforme para ser reconhecido por ela, mas não poderia simplesmente esgueirar-me pela cortina e tentar encontrá-la. Fiquei simplesmente sentado no meu lugar enquanto o público se retirava, tentando pensar em uma solucão.
Quando uma funcionária do teatro se aproximou - quem sabe para saber a razão por que eu não saíra como os demais - falei-lhe que "Victoria prometera ter uma rápida conversa comigo". Ela subiu até o palco fechado pelas cortinas e voltou depois de alguns minutos dando-me o recado de que ela estava muito cansada e não poderia receber-me (depois de tanto malabarismo, entendi perfeitamente!). Certamente se esquecera de mim, pensei. Então, veio-me à mente a palavra-chave para que se recordasse: "The Salvation Army"! A funcionária concordou em novamente ir falar com ela e, voltando rapidamente dessa vez, fez um sinal para que eu subisse ao palco. E lá, demonstrando cansaço após mais um show de duas horas - onde o seu grande talento é demonstrado através de muita agilidade, criatividade e versatilidade - a mesma face bondosa olhava para mim. "Ah, é você!", disse-me, ao que respondi com o elogio "que espetáculo tremendo!" Houve só tempo de pedir a alguém que tirasse uma fotografia e despedimo-nos.


Uma lição importante


De volta para casa, enquanto a neve caía cobrindo as ruas, lembrei-me de algo que na loja de departamentos comentara com ela: "Como você e sua família são pessoas importantes!", ao que me corrigiu apressadamente: "Não, nós não somos importantes, meu pai era importante!"
Como fora importante para mim aquele encontro! Como em um turbilhão, ao caminhar vinham-me à lembrança o passado, meus saudosos pais e seu espírito cristão expresso de tantas formas, uma delas a de levar Carlitos para trazer alegria a tantos órfãos. E aquelas visitas ao orfanato do Exército de Salvação certamente influenciaram-me na minha decisão, tomada mais tarde, de unir-me ao salvacionista e com eles servir ao próximo (leia a respeito de como ingressei no Exército de Salvação em meu blog), o que faço desde os meus 19 anos.
Pertencendo ao mundial The Salvation Army, curiosamente estamos tanto em meio a pessoas pobres e sofridas como de pessoas importantes e destacadas em muitas áreas Por conhecerem a nossa obra, muitas vezes palavras de elogio nos são dirigidas. E quando sou tentato a me achar importante, orgulhoso de tantas experiências adquiridas ao longo de meu ministério em quatro países, e tendo visitado mais de 30 nações, as palavras da filha preferida de Charles Chaplin me vêm ao coração: "Nós não somos importantes; meu pai era importante!" Sim, não nós os Seus filhos somos importantes; importante é o nosso Pai Celestial!



(Para a glória de Deus e homenagem ao famoso cômico, este artigo foi publicado nas revistas "Sotahuuto", de língua finlandesa, e "Krigsropet", de língua sueca, em 2001, mais tarde transcrito no mesmo jornal da Suécia)



Foto raridade: Charles Chaplin, 1914, com 16 anos.


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Geraldine Chaplin ingressando no cinema em Dr. Jivago (1965)


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15 Comments:

  • Deixe-me então o direito de sentir "inveja" ou talvez, sentir e compartilhar do mesmo orgulho que voce sentiu conhecendo Victoria Chaplin (a filha od mais ilustre cérebros do cinema mudo, o qual penso e sou um grande admirador de seu trabalho).

    Seira pra mim talvez um ato inalcançavel, mas sinto-me feliz por vc ter conseguido.Lhe digo mais, Parabens por esta realização ao seu texto e pelo blog todo. Forte abraço!!!

    By Blogger Adinan Leme, at quinta-feira, julho 20, 2006 12:18:00 AM  

  • Oi Paulo

    Já procurou por Chaplin no WebArchive? Tem uma série de filmes dele lá que são de domínio público...

    By Blogger pilgerowski, at sexta-feira, agosto 04, 2006 9:51:00 PM  

  • Oi Paulo,
    casualmente encontrei um poema de Charles Chaplin "Ei, você".
    Vale a pena ler/ter
    www.hotpoemes.pop.com.br

    By Anonymous Lili, at sábado, novembro 25, 2006 3:51:00 AM  

  • Nossa, posso dizer que fiquei até com "inveja", gostaria de estar no seu lugar para encontra-la (Vitoria.), gosto muito de Charles Chaplin, lembro quando recebi um e-mail, era o texto VIDA de Chaplin, amei e sempre que posso passo em comunidades doorkut ou procuro em sites de busca, obras desse mito.
    Bom, se eu estivesse no seu lugar, me alegraria muito.
    Você tem sorte.

    By Anonymous Maísa Borghetti, at sexta-feira, janeiro 05, 2007 2:04:00 AM  

  • Caro Paulo,
    Seu texto nos mostrou a sua luta em procurar divulgar o Exercito de Salvacao entre as pessoas importantes da sociedade.
    Permitiu-me tambem lembra do grande comediante de todos os tempos Charles Chaplin.
    Foi bom saber que Vitoria Chaplin segue com a veia artistica herdada de seu pai.
    Eu ainda conservo alguns filmes dele em 9,5mm que meus pais, irmaos e amigos assitiamos com um projetor Pathé antiquissimo.
    Parabens por seu ministerio! Belo relato e tive uma boa viagem no tempo.
    Visite meu Blog: http://calebcastellani.blogspot.com

    By Anonymous Anônimo, at quarta-feira, janeiro 31, 2007 11:34:00 PM  

  • Olá Paulo!
    Quero parabenizá-lo pelos textos, e por sua história de vida, pois sem dúvida alguma, são muitas lições aprendidas, muitas amizades e sem dúvida, o fato de conhecer pessoas famosas, e dividir isso com o grande público, fazem de você um belo exemplo de cidadão do mundo.
    Um grande abraço!

    By Blogger Zeca, at sexta-feira, fevereiro 23, 2007 3:26:00 PM  

  • Muito interessante seu blog. Vc possui uma vasta experiência e, falando francamente, que "inveja" de vc por conhecer um pouco do cinema da Holywood antiga. Tão fascinate e tão louca.

    Abraços,

    Herykha

    By Blogger Herykha, at sexta-feira, fevereiro 15, 2008 2:43:00 AM  

  • béns Paulo! adorei saber como foi! um abraço!

    By Blogger SAbrina, at quinta-feira, março 20, 2008 3:04:00 AM  

  • vc é demais gostei muinto de saber um pouco sobre a vida desse grande gênio e tbm conhecer sua filha por fotos, e vc teve ter realizado seus sonhos faleu abraçao e tudo de bom

    By Anonymous Anônimo, at terça-feira, junho 24, 2008 1:31:00 AM  

  • Franke tudo bem?

    Acabo de visualizar esse blog, precisamente na parte em que diz respeito a Charles Chaplin.
    Anônimo escreveu:

    Amei o jeito em que transcreveu a situação, o contexto de tudo. A Homenagem enfim...

    Me senti feliz em ver, e pensar que um dia, gostaria muito de conhecer esses lugares.

    Parabéns Mesmo. Fiquei emocionada com tudo.

    By Blogger paulofranke, at terça-feira, novembro 25, 2008 7:01:00 PM  

  • Oi Franke,

    Emocionante esse teu relato. Tb sou grande admirador de Chaplin ( mas quem não é!) volta e meia revejo seus filmes. Parece que são sempre "novos".

    Abçs.

    Francisco (S.Gonçalo)

    By Anonymous Francisco (S. Gonçalo), at sábado, outubro 17, 2009 9:48:00 PM  

  • Ai meu mano, um dia te escrevi que inveja e no bom sentido suas andanças pelo mundo.
    Meu chapa tu tens certamente muitos dons, porem, meu jovem , o maior deve ser o amor pela salvação das almas. Devo crer que voce o tem com tranquilidade.
    Receba meu abraço
    seu chapa
    Arnaldo
    obs: os carinhas que estão lendo este pequeno comentario talvez não entendam a linguagem, bem, sei que voce a entende com tranquilidade como bom brasileiro que és.
    Saide a ti e aos teus.
    Neste momento meu filho Arnaldo está visitando Stambul(turquia) galatas, efeso e outros locais mais onde o Apostolo Paulo fundou algumas igrejas.
    Deisse-me que é semelhante a Israel. Talvez um dia terei oportunidade de conhecer estes locais.

    By Blogger Arnaldo Rodrigues dos Satos, at segunda-feira, julho 23, 2012 9:02:00 PM  

  • É muito bom ver que muitas pessoas conseguiram ficar mais felizes pela alegria simples que Chaplin transmitia.
    A mesma alegria que uma obra social transmite, as vezes com toda uma filosofia por trás, ou simplesmente atendendo à um "ide" do Senhor.
    Fico feliz que o ateu Carlito possa ter tido contato com o "SA" o importante é que ele levou felicidade à muitas pessoas.

    By Blogger Vicente, at domingo, dezembro 21, 2014 5:20:00 PM  

  • Outra postagem incrível, linda sua reflexão final meu amigo.
    Abraços...

    By Anonymous Evelize, at domingo, dezembro 27, 2015 10:16:00 PM  

  • A FOTO ACIMA (1914) CHAPLIN TINHA 25 ANOS E NÃO 16 COMO ESTÁ NA LEGENDA

    By Anonymous Anônimo, at quarta-feira, janeiro 20, 2016 3:21:00 AM  

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