Paulo Franke

05 agosto, 2016

O quebra-quebra durante a Segunda Guerra em Pelotas-RS etc.



Nasci no ano de 1943, em Pelotas-RS. Talvez por essa razão assuntos ligados à Segunda Guerra Mundial sejam do meu interesse. Acima o jornal "Diário Popular" do dia em que vim ao mundo, quarta-feira, 06 de outubro de 1943, cópia obtida na Bibliotheca Pública de Pelotas.

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Abaixo, transcrevo e escrevo fatos que interessem aos leitores, com ênfase ao quebra-quebra na cidade de Pelotas durante a Segunda Guerra. 



Durante o período do Estado Novo no Brasil, e no contexto da Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), Getúlio Vargas proferiu as seguintes palavras:

“Seremos implacáveis no combate aos invasores e seus agentes infiltrados traiçoeiramente no meio de nossas populações laboriosas. Mas, aos nacionais dos países com os quais estamos em guerra, que aqui vieram e construíram os seus lares de forma regular e honesta, nada devem recear enquanto permanecerem entregues ao trabalho, obedientes à lei e prontos a colaborar nas atividades defensivas do Brasil. De modo bem diverso serão tratados os que, traindo os compromissos assumidos e ludibriando nosso acolhimento generoso, auxiliarem de alguma forma os inimigos, com eles mantiverem entendimentos, espionando ou fazendo sabotagem. A esses, aplicaremos com rigor as leis da guerra.” (07 de setembro de 1942)

A região de Pelotas vivenciou um processo de colonização atípico, pois os imigrantes alemães foram fixados de forma descontínua, entre colônias de outras etnias, na periferia de um município luso-brasileiro. Esse foi um dos fatores de maior vulnerabilidade dos “alemães”, na parte meridional do Rio Grande do Sul, durante as perseguições características da Segunda Guerra Mundial no Brasil.

Devido à proibição dos colonos se deslocarem livremente para a sede do município (a exigência dos “salvo-condutos” comprova isso), ficaram praticamente presos nas colônias. A existência de uma forte estrutura militar, policial, eclesiástica católica e administrativa, dominada pelos luso-brasileiros no município agravou esses problemas.

Na região, em agosto de 1942, ocorreu forte perseguição religiosa ao luteranismo, duas igrejas foram parcialmente queimadas, uma delas ligada aos norte-americanos de Missouri, aliados do Brasil na Guerra. Um fiel desta igreja, Pedro Guilherme Antônio Steffen Munsberg, foi preso, torturado e assassinado pela polícia, com a conivência do Exército. Na localidade de Igreja Queimada, hoje no município de Cerrito, o desrespeito foi caracterizado com o batismo simbólico de um cavalo no templo, ato também ocorrido em Cachoeira do Sul.

Partes dos objetos litúrgicos que foram saqueados da Igreja Luterana São João, na cidade de Pelotas, ficaram com a Cúria católica durante a Guerra. Os cultos luteranos foram proibidos e em Rio Grande a igreja se transformou em posto policial.

A polícia gaúcha confundiu o nazismo com o luteranismo. Muitos pastores protestantes foram presos e condenados a trabalhos forçados na colônia penal agrícola Daltro Filho (denominado local de concentração pelos policiais), onde havia um pavilhão para esses pastores. O pastor luterano em Pelotas, Alfred Simon, que sofreu interrogatório das autoridades consulares alemãs por ter retirado a bandeira nazista do clube XV de julho, foi ironicamente um desses presos. De fato existiram pastores nazistas, mas a maioria suspendeu essas atividades políticas quando foram proibidas. Até 1939, quando o Estado Novo, com suas características totalitárias, flertou com Hitler, o nazismo era aceito publicamente no Rio Grande do Sul.

As escolas e seus terrenos, motocicletas dos pastores, rádios, bibliotecas e até cemitérios foram desapropriados pelos policiais gaúchos. Após o final da Guerra (em 1947) o processo judicial, denominado pela imprensa: “Nuremberg às avessas”, demonstrou a infinidade de objetos furtados pelos policiais gaúchos.

Inúmeras casas comerciais, indústrias e residências dos teuto-brasileiros foram saqueadas e incendiadas em Pelotas, com a complacência da polícia, da Brigada Militar, do Exército e da Liga de Defesa Nacional. Os nomes das ruas da capital gaúcha, que faziam referência à Alemanha, foram trocados pelos nomes dos navios brasileiros afundados, fato atribuído aos alemães.

Em Pelotas os nomes alemães dos estabelecimentos comerciais foram substituídos, como a “Ferragem Nieckele”, que no caso passou a se chamar “Ferragem Americana”, ou passaram a ostentar nomes luso-brasileiros. Em alguns casos, os proprietários de origem alemã colocaram, como nome de sua casa comercial, o sobrenome de empregados de origem lusa.

O uso da língua alemã no Rio Grande do Sul foi considerado crime, alguns colonos foram presos e espancados por falarem o alemão. No quartel do Exército em São Leopoldo, os soldados que não se expressavam bem em português eram obrigados a usar uma braçadeira preta, discriminação semelhante àquela imposta pelos nazistas aos judeus (que eram obrigados a utilizar a estrela de Davi).

Na revista Vida Policial, o ensino de alemão passou a ser também proibido e confundido com o nazismo, de forma racista:

Não necessitamos da ‘cultura’ dos dolicocéfalos nazistas [...] Nada queremos aprender daqueles cuja atitude é um permanente ultraje à civilização: não julgamos, portanto, necessário conhecer a sua língua. (Eraldo Rabello, Maio de 1942: 7).

A criminalização dos elementos culturais germânicos fica evidenciada nas portarias policiais, como a decretada em 31 de janeiro de 1942, pelo delegado D. Peretti, em São Lourenço do Sul, que proibia falar ou cantar em alemão. Em regiões onde a colônia alemã possuía uma homogeneidade étnica essas restrições não eram tão pesadas, mas em áreas dominadas por populações não germânicas como Pelotas as delações eram mais freqüentes. Analisando a estatística policial do período verifica-se o rígido controle policial sobre os colonos, em janeiro de 1944 a delegacia de Pelotas expediu mais de 3097 salvo-condutos.

Esses preconceitos culturais fizeram com que durante décadas a língua alemã fosse banida das escolas e dos vestibulares ao ensino superior no Rio Grande do Sul. Muitos desses preconceitos ainda estão presentes na região de Pelotas, onde o desenvolvimento comercial e industrial sofreu sérias consequências pela destruição e evasão do capital de origem colonial alemã.

A inauguração do Memorial da Santa Casa de Pelotas trouxe novas pistas sobre militantes nazistas na região. Com a reorganização dos documentos da instituição, foi encontrado um exemplar de 1942 do jornal 'Folha do povo', que relata uma investigação policial a procura de uma estação clandestina de transmissão de rádio no hospital. Supostamente, ela seria utilizada pelos espiões nazistas. Túneis subterrâneos que ligariam a cervejaria de duas famílias alemãs à Santa Casa de Pelotas e que supostamente teriam servido a espiões nazistas para transmissões secretas por rádio para o Terceiro Reich, com a colaboração de um enfermeiro. O caso envolveria o próprio gerente da cervejaria, presidente do partido nazista na cidade, que chegou a se esconder nos porões da fábrica antes de ser preso e levado para Porto Alegre.

Foto: Acervo LAD/UCPel / Perseguição aos teuto-brasileiros, em 13 de agosto de 1942. O registro se deu em frente ao Hotel América, na rua Princesa Isabel esq. Felix da Cunha.

Com meus agradecimentos ao fantástico site da Internet,  "Olhares sobre Pelotas"
Fonte:

http://familiaronnau.webnode.com.br/curiosidades/as%20violências%20contra%20os%20alemães%20e%20seus%20descendentes/


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Quando o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial


Meu saudoso pai, Sr. Darcy Franke, quando éramos criancas ou jovens, nos contava episódios da Segunda Guerra Mundial, tanto os que aconteceram na distante Europa quanto os que aconteceram na nossa própria cidade, Pelotas, RS. Descendente dos primeiros alemães que vieram para o Rio Grande do Sul em 1825 (veja link abaixo), contava-nos com voz pesada e triste o que ele próprio testemunhara juntamente com milhares de famílias descendentes de alemães que nada tinham a ver com o nazismo. (Continua após o texto publicado em um livro sobre a história de nossa cidade.)


Era noitinha do dia 12 de agosto de 1942 quando soaram as sirenes dos jornais."Opinião Pública" e do "Diário Popular", instalados à rua 15 de Novembro, esquina Voluntários, onde hoje funciona o "Bar Cruz de Malta". As mesmas vibraram fortemente chamando a população para uma notícia sensacional: o Brasil, entrava na 2ª Grande Guerra ao lado dos aliados, contra os países do Eixo (Alemanha, Itália, Japão e países satélites). Em poucos minutos, uma grande multidão começou a concentrar-se no centro da cidade (15 de Novembro e 7 de Setembro), dando início a uma passeata. Era o grande "quebra-quebra". Os principais alvos eram estabelecimentos comerciais e residências de alemães e italianos, aqui residentes. Furiosa, a multidão seguia, deixando um rastro de destruição. Fato incontestável, merece o nosso registro e para que se tenha uma idéia real deste humilhante acontecimento, divulgamos uma série de fotos que mostram a grandiosidade deste "quebra-quebra". Fotografias que nos foram cedidas por Maximiano Pombo Cirne, na época redator do "Diário Popular" e que, desempenhando esta função, acompanhou de ponta a ponta o acontecimento.



Voltando aos comentários de meu pai - dos que ainda me recordo - no dia do quebra-quebra, quando os operários e funcionários chegaram à firma onde trabalhavam, Curtume Julio Hadler, encontraram a turba destruindo tudo o que podia- também em outros estabelecimentos industriais - espatifando janelas e portas, adentrando os locais de maquinário pesado e da producão e também os arquivos e máquinas do escritório, setor onde meu pai trabalhava. Em pouco tempo o que restava era um monte de destrocos e fogueiras ardendo por todos os lados. Ainda que muitos da diretoria e do escritório e também técnicos (meu avô e dois tios-avós), idem operários, fossem descendentes de alemães que nenhuma culpa tinham do que acontecia do outro lado do mundo, dezenas de operários eram brasileiros que trabalhavam arduamente para ganhar o sustento de suas famílias, como os demais.

Uma tia-avó também de origem alemã acrescentava-nos que quando os revoltosos, com o total apoio da polícia, entraram para saquear e atacar uma família descendente de alemães, a dona da casa enrolou a bandeira brasileira à volta de seu corpo, o que fez a turba dar para trás e não a atacar. De fato, um episódio trágico da história brasileira

Contaram-nos também dos black-outs em pleno Rio Grande do Sul, quando todos eram obrigados a usar velas e colocar papéis escuros nas janelas. Nascido em outubro de 1943, e alheio a tudo o que se passava, às vezes penso que enquanto eu dormia ou chorava no meu berco infantil, Hitler estava discursando freneticamente, no outro lado do mundo, nos dias tenebrosos da Segunda Guerra Mundial.



Um artefato raro do Curtume Julio Hadler que vou presentear em breve a um filho de membro da diretoria da conceituada firma.

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L i n k s

Um trecho digno de ser lido

http://paulofranke.blogspot.fi/2008/11/quando-segunda-guerra-comecou-ajcronin.html


Ruínas que ficaram...


Uma conceituada firma que sofreu com o quebra-quebra

http://paulofranke.blogspot.fi/2014/07/1-curtume-julio-hadler-sa-uma-firma-que.html


http://paulofranke.blogspot.fi/2014/07/2-curtindo-lembrancas-do-curtume-julio.html


Fotos da Igreja Luterana São João durante o quebra-quebra

http://paulofranke.blogspot.fi/2012/04/pelotas-rs-pelos-caminhos-da-saudade.html


E sobre a nossa família Ebling-Franke:

Quando visitei a cidade dos Frankes na Alemanha:

http://paulofranke.blogspot.fi/2012/08/minhas-raizes-franke-na-alemanha.html


A série que escrevi aos descendentes de Carlos e Adolphina Ebling-Franke