Paulo Franke

05 novembro, 2008

"Quando a Segunda Guerra começou" - A.J.Cronin

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Presenteie o seu coração

lendo o texto até a conclusão!

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Não posso afirmar se o livro "Pelos caminhos da vida" era exatamente o preferido de meu pai, mas decididamente era um deles. E nas recordações do que nos contava após ter lido algo que lhe impressionara ou chamara a atenção, uma constante, saliento um capítulo do citado livro do magnífico escritor A.J.Cronin, autor de muitos outros.


(Busque mais informações sobre o famoso escritor escocês no Google).


Nesse capítulo, não necessariamente com o nome que dei, Cronin nos faz viajar até um pequeno vilarejo suíço, onde teve uma extraordinária experiência antes de a guerra começar...








Nunca a beleza do mundo havia sido tão evidente. Nunca a vida parecera um potencial tão grande de felicidade. No entanto, apesar de tudo, como uma estranha dissonância em uma linda sinfonia, havia em toda a Europa nuvens sombrias de ódio e de medo.
Nos vales tranquilos da Bavária ouvimos o passo pesado dos soldados e o troar dos exercícios de artilharia. Das fábricas da Silésia, saíam combois de caminhões, carregados de armas. Munique era um louco festival de bandeiras, uma parade de uniformes militares. Em Viena, a mais alegre e hospitaleira de todas as cidades, a ópera continuava, os sinos da Catedral de São Estêvão ainda repicavam, o festival do vinho não deixou de ser realizado, mas por trás de tudo isso a gente podia sentir um tremor, um fatalismo que beirava o desespero.
Estava chegando… chegando… uma avalanche de horror e destruição… uma guerra total que envolveria e destruiria milhões de pessoas inocentes que não queriam participar dela, mas não sabiam como evitá-la. Por que, oh, por que, em nome da humanidade sofredora, tinha que ser assim?

No inverno de 1938, alugamos um chalé na aldeia de Arosa, a dois mil metros de altitude, nas encostas íngremes do Tschuggen. Picos brancos e majestosos, que o sol do entardecer tingia de cor-de-rosa, o tilintar alegre dos sinos dos trenós puxados a cavalo, ski-wasser e café com creme nas pequenas lanchonetes da aldeia, o doce cheiro das vacas nos estábulos de madeira forrados com palha, a limpeza imaculada, a deliciosa comida suíça, o rangido da neve fresca sob os pés, à noite aquele cansaço gostoso depois de um passeio de esqui de dia inteiro até S.Moritz, o brilho das estrelas, as luzes se apagando, uma a uma, nas casas da aldeia, deixando apenas a quietude eterna e o luar prateado. Para nossos meninos, para quem aquelas férias na montanha constituíam uma aventura inesperada, havia um fascínio todo especial em esquiar e patinar, em descer a encosta de trenó, a toda velocidade, e acabar lá embaixo, deitados na neve macia, com as bochechas rosadas.

Mas para mim, apesar do estímulo do ambiente, a situação mundial, que se deteriorava rapidamente, era fonte constante de preocupação. Nos últimos anos, havia mudado muito. Ao deixar de viver apenas para o presente, eu tinha, para melhor ou para pior, adquirido o hábito de refletir diariamente a respeito de certos aspectos da existência muito menos materiais que os que me haviam absorvido no passado. Assim, não há dúvida de que meu estado de espírito era propício para o que aconteceu. Porque foi ali, em Arosa, em um domingo, quando fui à igreja – uma visita rotineira, cumprida sem nenhum fervor extraordinário – que passei pela experiência espiritual mais estranha de toda a minha vida.
Havia conhecido muitas igrejas: as grandes catedrais de Chartres e Rheims, a Capela da Virgem Negra em Montserrat, a Basílica de São Pedro em Roma, o campanário e batistério de Giotto, em Florença… Aquela era diferente: uma pequena capela toda feita de pinho, cheirando a resina, empoleirada em meio aos picos nevados dos Alpes. Ali, naquela altitude, respirando o ar puríssimo, contemplando a beleza indescritível do céu e da neve, a gente se sentia como se estivesse no limiar do paraíso. Os fiéis eram quase todos camponeses, o povo forte, trabalhador, de olhos azuis daquele cantão do lado alemão da Suíça. Os homens vestiam ternos escuros. As mulheres não usavam enfeites, no máximo uma touca de renda ou um xale bordado. Uma manta vermelha, usada por um garotinho, destacava-se como um farol.

O rito foi muito parecido com o que eu conhecia e portanto não despertou em mim nenhuma sensação nova. Entretanto, parecia haver mais simplicidade, mais objetividade naquelas preces. De qualquer forma, havia para mim uma estranha presença, uma curiosa expectativa vibrando no ar. E então chegou a hora do sermão. Quando todos se sentaram, e o pastor subiu ao púlpito de madeira nua, meu companheiro me lançou um olhar de pena. Eu estava com um inglês de meia-idade que havia sido meu paciente em Londres e estava na aldeia para tratar-se de tuberculose. Falava alemão fluentemente, enquanto eu não conhecia uma única palavra daquela misteriosa língua. Sob o olhar depreciativo do meu ex-paciente, senti-me condenado, graças à minha falta de cultura, a uma hora de tédio profundo.

Entretanto, quando o pregador se voltou para a audiência, senti novamente aquele estranho frêmito. Havia muito naquela figura vestida de branco para prender a minha atenção. Ele era moreno, baixo e atarracado, trinta e poucos anos, rosto macilento, testa larga, um olhar penetrante, magnético. Era ao mesmo tempo vibrante e tranquilo, irradiava uma humildade corajosa. Quando falou, foi com voz contida, mas suas palavras encheram a pequena igreja e reboaram no teto. Depois de ler o Evangelho, fez uma pequena pausa e em seguida começou o sermão, naquela língua totalmente desconhecida. Não sou nenhum fanático. Já ouvi muitos sermões. Nos últimos tempos, especialmente, senti-me farto das investidas tímidas, das críticas água-com-açúcar de pregadores conservadores. Mas aquele homem era diferente; tão diferente quanto o aço temperado do metal barato. E à medida que seu discuro tomava forma, a despeito de minha total ignorância do conteúdo, senti-me sob os efeitos de um estranho encanto místico. Entendi uma palavra: Christus. E outra, que era Fuhrer.

De repente, como que por um passe de mágica, a cena se desfez, a igreja e os fiéis desapareceram. Vi de repente, e com uma clareza estonteante, os países da Terra e a pestilência que pairava sobre eles. Vi as grandes ditaduras, controladas por uma só mão, por uma só voz, idolatrando a doutrina do sangue e do ferro. Vi as grandes democracias, prósperas e obesas, zelosas de suas grandes fortunas, temerosas de que algum vândalo se dispusesse a roubá-las. Vi em cada país os bilhões de toneladas de armamentos acumulados. Vi as bombas e os canhões, os estoques de gas venenoso, as nuvens de aviões mortíferos escurecendo o céu. Vi crianças ensinadas desde o berço a brigar e a odiar, a marchar em paradas militares quando mal sabiam andar, a acariciar um rifle como se fosse um brinquedo predileto.

Vi metade da fortuna da Terra enterrada como metal amarelo inútil em uma tumba de concreto. Vi o trigo sendo queimado às toneladas em um canto do globo, enquanto em outro milhares de seres humanos morriam de fome. Vi em toda parte as cegas investidas da humanidade, a busca desesperada de segurança, os mergulhos inquietos no prazer momentâneo, a luta febril pelos bens materiais. E acima de tudo, em meio ao som de jazz e ao tilintar de moedas, vi o fantasma onipresente, o espectro terrível da autodestruição.

Foi uma visão de gelar o sangue, uma visão que me encheu de horror: aquela terra boa e generosa, trsnbordante de fartura, dividida de ponta a ponta pelo ódio, pela agressão e pela crueldade, que, se não fossem contidas, certamente reduziriam a civilização a pó. E pensar que fazia menos de um quarto de século que nove milhôes de homens haviam sacrificado a vida pela promessa de uma paz duradoura!

Essa lembrança cruel não podia deixar de suscitar uma pergunta amarga: por que, em nome da razão, havíamos permitido que aquela loucura acontecesse? A pergunta não era nova, mas me atingiu com força redobrada. E por minha mente passaram as infindáveis explicações que a imaginação humana havia engendrado. Tensões econômicas, inflação e depressão, desemprego e tudo o mais. A decadência das nações, a necessidade de colônias, a sobrevivência dos mais aptos. Como me pareciam tolas, como me pareciam fúteis tais explicações!

Porque a resposta era clara, surpreendentemente clara. Só havia uma razão, uma explicação básica: o homem havia-se esquecido de Deus. Milhões de indivíduos em todo o mundo eram cegos e surdos para o Criador. Para muitas almas humanas, o Nome não passava de um mito. Para outras, uma simples tradição a ser cumprida. Para outras, uma conveniência. Para outras, uma suave hipocrisia. Sim, aquela era a verdade nua e crua. Falsos deuses, tão odiosos quanto o bezerro de ouro da Bíblia, hoje ocupavam os altares do povo cristão. O paganismo havia conquistado o mundo moderno. Em quase todos os homens, a simples menção do nome de Cristo despertava um sorriso de desprezo e superioridade.

E no entanto, aqui, nesta louca busca de liderança, estava o único Líder capaz de salvar o mundo. Aqui, esquecido do torvelinho de ideologias, estava o único credo que prometia a salvação. Não era um credo difícil de compreender. Nem mesmo de seguir. Um credo de beleza e simplicidade. Viver decentemente, aos olhos do céu e do seu semelhante. Amar o próximo, não cobiçar-lhe os bens. Ser tolerante, caridoso, humilde. Lembrar sempre que a vida, como a conhecemos, é apenas um fragmento da eternidade.

Oh, quem me dera que um exército de novos cruzados se levantasse para levar a fé aos quatro cantos do mundo, para desfraldar mais uma vez a bandeira do Rei! Oh, quem dera que mais ministros da religiâo deixassem de contemporizar, esquecessem a prudência, largassem as igrejas vazias e se lançassem à luta, como soldados da fé! Então, talvez o mundo voltasse à sanidade, e a pobre, confusa e torturada humanidade reencontrasse Deus.

De repente, senti um choque e o fluxo dos meus pensamentos foi interrompido. Com uma sacudidela que foi quase física, voltei à Terra e vi que o pregador tinha terminado o sermão. Saímos da igreja para a claridade ofuscante do dia de inverno. Enquanto caminhávamos em direção à aldeia, contei ao meu companheiro com pormenores minha estranha meditação. Ele me escutou com espanto crescente. Quando terminei, olhou para mim, assombrado.

-Não é possível! – exclamou, quase sem fala. – Isso, praticamente, palavra por palavra, foi o que o pregador disse no sermão!

(Livro “Pelos Caminhos da Vida”, do original em inglês Adventures in Two Worlds, Editora Record, tradução de Ronaldo Sergio de Biasi)


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Ah, esses lugares simples! Não tanto em catedrais suntuosas


... mas muitas vezes nessas capelas rústicas é que sentimos mais de perto a doce presença de Deus e a simplicidade do Cristo!

( fotos: Ekenäs, Finlândia)

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O jovem pastor Timo e o velho pastor Paulo, ombro a ombro na mesma missão.

"Paulo, apóstolo de Cristo Jesus... a Timóteo, filho na fé "(1 Timóteo 1:1-2).

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"As chaves do reino" (The keys of the kingdom), romance de A. J. Cronin, foi levado às telas em 1944 tendo no papel principal o excelente ator Gregory Peck.







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3 Comments:

  • Linda passagem...e dica também vou procurar ler esse livro...muito tem a nos ensinar...meu Deus as vezes é nos pequenos lugares mais simples e humildes que grandes milagres e obras divinas acontecem!

    By Anonymous evelize, at terça-feira, novembro 11, 2008 2:46:00 AM  

  • ola, qdo morava em sao paulo, ainda adolescente descobri nas coisas de meu pai um livro e que se tornou o livro da minha vida, depois da Biblia. esse livro, escrito por A. J. Cronin era o famoso Pelos caminhos de minha vida. ja li mais de 10 vezes e sempre quando volto a le-lo encontro alguma coisa que nao havia descoberto na leitura anterior.

    By Blogger AKKRIBOS, at terça-feira, dezembro 16, 2008 12:47:00 AM  

  • Pelotas no período da Segunda guerra Mundial...

    https://www.facebook.com/preteritaurbe/posts/123673377803828

    By Blogger paulofranke, at sexta-feira, julho 26, 2013 10:54:00 AM  

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