Paulo Franke

14 outubro, 2006

Poemas às Comunidades de Viagens

Poema afixado diante de uma velha árvore no Castelo de São Jorge, Lisboa:

AO VIANDANTE

Tu que passas e ergues para mim o teu braco;
Antes que me facas mal, olha-me bem:
Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de inverno,
Eu sou a sombra amiga que tu encontras
Quando caminhas sob o sol de agosto,
E os meus frutos são a frescura apetitosa
Que te sacia a sede nos caminhos.
Eu sou a trave amiga da tua porta, a tábua da tua mesa,
A cama em que descansas e o lenho do teu barco.
Eu sou o cabo da tua enxada, a porta da tua morada,
A madeira do teu berco e do teu próprio caixão.
Eu sou o pão da bondade e a flor da beleza.
Tu que passas, olha-me bem e... não me facas mal.


Quando vivíamos em Lisboa - 1978



POEMAS GAÚCHOS:



Com o filho Aaron em uma churrascaria de "espeto corrido"


NOSTALGIA

Sentindo do luar ternos afagos,
Sinto também saudade dos meus pagos...
Saudade do chão serrano, da campanha enluarada,
Das nevadas, do minuano, da primeira namorada.
Saudade dos pinheiros altaneiros,
Dos arroios cantantes de águas claras,
Saudade das coxilhas onduladas,
Como os cabelos verdes das iáras.
Enfileirados, bem como soldados,
Pareco ver os plátanos distantes
Revestidos de folhas verdejantes
No início do verão.
E depois, acoitados da invernia,
Despojados da verde ramaria,
Tapeteando de folhas todo o chão.
Relembro festas, marcacões, serestas,
Gaitas chorando em madrugadas tristes,
O vinho quente em noite de São João;
Casas velhas e novas misturadas,
As geadas, os campos, as queimadas,
As belezas sem par do meu rincão!
Vejo depois o vento sul malvado,
Pouco a pouco envolver toda a cidade,
Num cinzento lencol de cerracão,
E o frio nevoeiro da saudade,
Trazido pelos ventos do passado,
Também vai-me envolvendo o coracão...

- Zeno Cardozo -



PRECE GAÚCHA

Dá que eu seja, Senhor, Teu servo forte
- o campeiro da fé, Teu peão de estância,
o domador de meus impuros ímpetos;
e que não tema os sóis nem a distância,
e enxergue sempre os horizontes límpidos.

Na ronda do meu sonho, a estrela d'alva
me inspire cantos para Teu louvor!
E a toada mansa do tropeiro antigo
venha a meus lábios na cancão melhor!

Que eu reparta o meu fiambre com os andejos,
pobres de amor a meditar um pouso.
Meu poncho possa lhes servir de abrigo,
e eu tenha sempre este tranquilo gozo
de aquecer as almas que não têm repouso,
com a mesma lenha de meu fogo amigo.

- J.O.Nogueira Leiria -


Judeus gaúchos (Argentina)

7 Comments:

  • Nostalgia =
    saudade
    tristeza
    solidão.
    Inspiração!

    Valeu! Também estou longe dos meus pagos.

    By Anonymous Noiletrocaletra, at segunda-feira, outubro 30, 2006 7:35:00 PM  

  • De repente me deu uma saudade do meu Rio Grande do Sul!Abracos,e que honra ser sua conterranea.

    By Anonymous JOSIANE WICHINIESKI, at sábado, janeiro 20, 2007 11:07:00 AM  

  • Tchê, eu sou neto do autor da Prece, obrigado pela lembrança.
    Abraços,
    Otávio A. Leiria Heinz

    By Anonymous Anônimo, at terça-feira, maio 01, 2007 8:28:00 AM  

  • È uma delicia viajar, como eu gosto. E mais ainda quando damos aquela pausa nas nos restaurantes para saborearmos as iguarias do local, ainda é mais refrescante. Beijos .

    By Anonymous laura jane, at sábado, julho 21, 2007 11:31:00 PM  

  • Filho de João Otávio Nogueira Leiria, vejo com satisfação a transcrição de seu poema "Prece", que faz lembrar a "Oração de São Francisco". E foi em São Francisco de Assis, no Rio Grande do Sul, que nascemos, meu pai e eu.

    By Anonymous Reinaldo B. Leiria, at sábado, setembro 29, 2007 2:00:00 AM  

  • Obrigado a todos que postaram um comentário aqui, em especial ao Otávio e Reinaldo, parentes do autor da abencoada prece gaúcha, que me acompanha há tantos anos! Parabéns! Näo so encontrei no orkut, pena! quem sabe a gente pode comunicar-se por e-mail:

    paulofranke@hotmail.com (aBRacos!)

    By Blogger paulofranke, at domingo, outubro 07, 2007 6:28:00 PM  

  • Certo dia meus netos (2 e 5 anos) brincando na nossa chacara, batiam com um pau nas árvorezinhas e quebravam seus ainda tenros galhos. Criados em zona urbana onde só conhecíam asfalto, se divertiam muito com o que estavam fazendo. Claro, tive que conversar com eles e fazê-los compreender o mal que estavam fazendo às futuras árvores. Esse poema lisboense, lembrou-me o fato. Faço questão de enviar-lhes, agora crescidos, para que não se esqueçam do que lhes foi ensinado qdo pequenos.
    Igualmente enviarei ao meu amado filho gaúcho a oração do gaúcho, muito linda também.
    Obrigada mais uma vzs Paulo, vejo que nem imagina o quanto pode sensibilizar os seus leitores.É por estas e outras que continuo sendo sua assídua visitante.

    By Blogger Yara, at segunda-feira, dezembro 26, 2011 8:46:00 PM  

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