Paulo Franke

19 janeiro, 2008

No Agito do Egito


Não planejei visitar o Egito com muita antecedência, mas a TV ao mostrar paisagens ensolaradas do país tornou-se um convite a tirar minhas férias de inverno por lá, fugindo por uma semana da neve e do frio e unindo-me assim aos milhares de nórdicos que fazem isso nesta época do ano.
O título desta postagem é um trocadilho e a palavra agito, ainda que usada como gíria, segundo o dicionário é sinônimo de agitacão, o que em um sentido caracteriza bem esta minha primeira viagem à África e a uma nacão árabe (se bem que, segundo um guia de uma excursão que fiz, egípcios não são árabes, são... egípcios).



Sobrevoando a Turquia e suas montanhas com picos nevados



Deixando a Turquia e sobrevoando o Mar Mediterrâneo


A chegada ao Egito e a visão de desertos a perderem-se de vista

E assim, após 5 horas de vôo, chegamos ao nosso destino, Hurghada. Da janelinha do avião, a contemplacão da cidade, localizada em uma extensa faixa litorânea entre o imenso deserto e o Mar Vermelho, de um azul impressionante em suas diversas tonalidades que vão do azul profundo ao azul claríssimo. E modernos e imensos resort-hotéis, centenas deles, todos com piscina e grandes palmeiras, e muitos sendo construídos.

Meu hotel não poderia ser chamado de 5 estrelas, mas para mim era como se o fosse. Bastava sair do meu quarto e vislumbrar o Mar Vermelho para se pensar que só por essa visão já teria valido a pena a viagem...


Como na Turquia, a presenca de um brasileiro, evidenciada nas minhas camisetas, gerava, passada a dúvida, largos sorrisos e um rosário de nomes de jogadores conhecidos deles, cuja pronúncia eu mal conseguia entender de início. Da mesma forma como havia acontecido na Turquia, Israel e em alguns países do Mediterrâneo onde estive, dirigiam-se a mim falando naturalmente o idioma do país, nesse caso o árabe, a que eu respondia em inglês para algum espanto, julgando os homens que eu era um egípcio. Outros, pelos meus olhos verdes, percebiam que eu não era um típico native. Como tenho o meu próprio modo de fazer turismo, tomava para ir ao centro fervilhante de bazares lotacões comuns, e assim misturava-me ao povo, nesse caso como um perfeito egípcio (a não ser pela roupa). Interessante a ausência de mulheres nessas conducões ou em qualquer lugar, altamente reservadas e às vezes em sua indumentária mostrando só os olhos. Grande contraste com as mulheres modernas do Cairo, como se vê pelos canais de TV.


Entre os milhares de turistas em Hurghada, milhares de russos pelo fato de agora viagens lhes serem perfeitamente acessíveis financeiramente. Conversando com alguns "vizinhos", soube que atualmente até um professor primário com seu salário pode facilmente passar férias em outro país. Com meus botões, pensei em quando isso acontecerá também com a maioria dos brasileiros...



Tendo viajado com uma gripe mal-curada, piorei assim que nadei no mar. Então, praticamente fiquei no quarto do hotel por muitas horas durante três dias, tentando melhorar. A TV dos Emirados Árabes, direto de Dubai, era o único canal em inglês e assim assisti a diversos filmes americanos, um seguido do outro, até ao "O Homem-Aranha", para lembrar-me dos meus netinhos.

Então, tendo vindo de tão longe para ficar em um quarto de hotel, mudei de idéia quanto à suficiente beleza do mar logo ao sair da porta, dei um basta e planejei participar de três excursões em três dias seguidos, um verdadeiro agito ou uma experiência "à la Indiana Jones".


Na primeira delas, um jeep com quatro pessoas veio buscar-me no hotel e, em poucos minutos estávamos em pleno deserto, com altas montanhas e grandes extensões de areia, rumo a uma comunidade de beduínos.
Logo no início comecei a pensar se o passeio seria compatível com a minha idade... solavancos sucessivos, de bater com a cabeca na tolda do jeep e logo dar com tudo no banco. Os companheiros jovens divertiam-se, enquanto que eu... Mas o guia explicava-nos que o nosso motorista beduino tinha muita prática e estava conduzindo-nos no deserto sem estradas de uma forma segura e profissional (imaginem se não fosse!).



Em certo momento, descemos do veículo e nosso guia pediu-nos para olhar em direcão a um determinado ponto. Miragens!! Água ao longe e, agachando-nos, podiamos também "ver" a água mover-se!! E não era água do Mar Vermelho!

Mais algum trecho, com os agora conhecidos solavancos, e chegávamos à comunidade de beduínos onde passamos até o pôr-do-sol, ouvindo explicacões da vida que levam, seus costumes, tradicões, com um jantar servido por eles. Antes de retornarmos, vimos jovens beduínos cantarem e dancarem animadamente. Ah, quase me esqueco de mencionar os camelos... Muitos turistas que visitavam a comunidade fizeram fila para "andarem a camelo". Para mim bastaram os solavancos da viagem... uma foto com um deles era o suficiente.


Voltando do tour ao deserto, já escuro, paramos para contemplar o céu estrelado, como um planetário da natureza, espetacular! E ficou a lembranca do silencio profundo do deserto, dai muitos homens de Deus o procurarem para meditar e aproximar-se do Criador, longe das vozes e sons do mundo.


Um guia de excursão egípcio

Bem que eu precisava de um descanso no dia seguinte, mas era hora de partir para outra. Dessa vez, a cidade de Luxor, à beira do Rio Nilo. O mini-bus veio buscar-me no hotel às 04h00 da manhã e trouxe-me de volta às 23h00... E assim, por quatro horas, deserto a dentro, dirigimo-nos à histórica cidade, berco do Vale dos Reis, felizmente em uma boa rodovia asfaltada.

Dessa vez, a curiosidade foi ver, como mostra a foto abaixo, o comboio de 60 ônibus e mini-buses tendo nos extremos viaturas policiais. A razão nos foi explicada: desde 1997, quando um grupo de turistas alemães foi assaltado e assassinado, por lei ônibus conduzindo turistas têm de viajar dessa forma, para sua seguranca, em todo o país.

Faltando cerca de 30km para chegarmos a Luxor, a paisagem muda completamente. E logo víamos um pequeno afluente do rio Nilo e o grande milagre que faz acontecer: campos verdejantes, plantacões de todo o tipo, inclusive de cana-de-acúcar, e muitas fazendas entre árvores frondosas. É o milagre do Nilo.



Em Luxor, um dos nomes Tebas, hoje cidade altamente turística, visitamos museus e templos egípcios, ouvindo extensas explicacões sobre os faraós, suas vidas, seus feitos, suas crencas, sua importância , vendo suas múmias.. Ali ouvimos e vimos altas estátuas de Ramsés II e de sua esposa Nefertari, idem do famoso Tut-Ankh Amon. O museu mostrado abaixo é maior mesmo do que o museu do Cairo em seu acervo, não exposto à visitacão de uma só vez. É o maior museu ao ar livre do mundo. Em tudo, o desejo de imortalizar-se em granito. O Google dá ampla explicacão do Egito nos tempos dos faraós e suas sucessivas dinastias, e pode-se ler sobre as atracões de Luxor, para mim a maior e mais bela, o motivo principal desta minha excursão: o Rio Nilo.



Ao entramos no referido museu, dirigimo-nos a uma sala onde é projetado um filme explicativo tanto do museu quando de outros importantes locais da cidade, que para serem vistos necessitaríamos de talvez uma semana. O narrador do filme, Omar Shariff! Foi a minha vez de contar para os colegas de viagem, na hora do almoco, minha historieta - para dar uma pausa nas tantas histórias sérias e dramáticas que ouvíramos até então. Nomeado na cidade de Campos-RJ, em 1968, pela importância do filme fui ao cinema assistir ao "Dr. Jivago", interpretado pelo ator egípcio. À saída do cinema e nos dias seguintes muita gente me olhava, tipo associando-me ao ator, como se eu fosse seu irmão (quando jovem, naturalmente). Decidi, então, de brincadeira, acentuar aquela semelhanca deixando crescer meu bigode, que nunca mais raspei.



No centro da foto acima, vimos o antigo palácio de cor amarela, há muitas décadas transformado no luxuoso Hotel Winter. Nele hospedou-se Agatha Christie e ali escreveu sua famosa novela "A morte no Nilo", best-seller levado às telas e tendo o ator Peter Ustinov no papel do detetive belga Hercule Poirot. Nunca li o livro e nem sou achegado ao gênero, mas hoje assistiria ao filme novamente, para admirar as belezas do Nilo, onde luxuosos barcos fazem turismo de até três dias e três noites de duracão.

Do outro lado do rio, que atravessamos em um pequeno barco, visitamos o Habu Temple, colossal pelas suas gigantescas colunas e estátuas. Interessante foi ver as pinturas preservadas em suas cores naturais. Ouvimos também como eram produzidas as cores básicas usadas na época, que não se apagaram até os dias de hoje.





A volta se deu por uma ponte, onde paramos para fotografar o pôr-do-sol sobre o Nilo. Uma última atracão nos esperava no caminho de volta a Hurghada, a visita a uma fábrica de objetos de alabastro. Ali vimos a matéria-prima sendo processada de modo primitivo, sempre com as mãos e pequenos e rudes instrumentos, até transformar-se em lindos objetos de decoracão. Os mais bonitos, talvez por lembrarem a passagem bíblica da mulher quebrando um vaso de alabastro com perfume aos pés de Jesus, eram exatamente os vasos. Curiosamente, se colocados através da luz pode-se vê-los quase transparentes. Como minha grana não era suficiente para comprar de presente um vaso para a Anneli, comprei um pequeno prato de alabastro, mais um enfeite para a nossa sala-museu!



O terceiro dia de turnê, o penúltimo de estada no ensolarado Egito - nesta época o inverno deles, com clima tipicamente de deserto, isto é, manhãs e noites frias e tardes quentes - dediquei a um cruzeiro pelo Mar Vermelho. Constatada agora de perto as tonalidades incríveis do mar, soube que o estranho nome Vermelho lhe foi dado por ser o único lugar do mundo onde crescem algas vermelhas (foto).



Já me sentindo um pouco abatido e febril pelo sol excessivo a que me expusera naqueles últimos dias (e não tomando água suficiente...), fui só espectador do mar e da movimentacão dos meus companheiros de cruzeiro, muitas famílias também, que tinham como principal atracão do passeio o praticar snorkel (foto), da superfície olhar o fundo do mar com equipamento especial, naquele local com 6m de profundidade, com direito a uma câmera fotográfica à prova d´água. Muitos também mergulharam uma vez que Hurghada é chamada de o paraíso dos mergulhadores (e pescadores). Enquanto isso, tirei longas siestas ao sabor das suaves ondas do mar. E ali eu pensava no meu genro Rodrigo, que gosta desse tipo de esporte aquático, tendo-o praticado em suas últimas férias no Rio de Janeiro.






Um jovem que trabalha no navio, com sua pele escuro-avermelhada pelo sol egípcio, no verão implacável.


No dia seguinte, após o café-da-manhã no hotel (desta vez incluído!), fomos transportados ao aeroporto para mais 5 horas de viagem de retorno à Finlândia. E no avião da Finnair, com todos os seus assentos ocupados, muitos finlandeses vermelhos pelo sol que, assim como eu, foram buscar.

Valeu a experiência, ainda que nos meus planos inciais estivesse incluído viajar até o deserto do Sinai, infelizmente um tanto distante, o que não pôde acontecer. Agradeco a Deus por mais esta oportunidade de visitar, em um sentido, terras bíblicas, o que me dá muita satisfacão interior.

Muitos vão buscar "energia" na terra dos faraós. No meu caso aconteceu uma perda de energia física e o resultado tem sido quatro dias de licenca médica... Mas sobrevivi ao agito no Egito, e isso é o principal.

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Nota: Na década de 50 fez sucesso o filme "O Egípcio", com Edmund Purdom e Gene Tierney nos papéis principais e baseado no romance do finlandês, Mikka Valtari, que surpreendentemente escreveu sobre o tema sem nunca ter estado no Egito. Acesse o link abaixo, enviado por minha irmã, e lerá mais sobre o filme. A meu ver faltou comentarem sobre sua queda moral, que o forcou a trabalhar na casa dos mortos, e o tocante momento quando traz os corpos de seus pais para serem ali embalsamados.


http://www.nostalgiabr.com/epicos/oegypcio/oegypcio.htm


15 Comments:

  • Major,

    Parece ter sido um ótimo passeio! Estimas melhores!

    Tiago

    By Anonymous Tiago Luchini, at sábado, janeiro 19, 2008 1:33:00 PM  

  • Amigo Paulo,
    Acabei de visitar o seu Blog e saí encantada com a viagem.
    Você a descreveu com tantos pormenores que, maravilha, viajei junto e conheci aquela terra maravilhosa!
    Só mesmo um homem abençoado como você, tem o privilégio de aumentar a sua bagagem com lugares tão lindos, imagino o quanto tem a contar para os seus netinhos...
    Espero que tenha se recuperado da gripe e que já esteja pronto para novas aventuras!
    Para grandes "agitos" fora do Egito rsrsrsrs

    By Anonymous Gloria Policano, at sábado, janeiro 19, 2008 5:21:00 PM  

  • Quanto aos professores primários, os nossos tupiniquins não estão longe não.

    Veja esta ótima notícia na Folha de Hoje.

    Esse nível de renda coloca os professores dentro da classe média.

    Tiago

    By Anonymous Tiago Luchini, at sábado, janeiro 19, 2008 5:59:00 PM  

  • Caro Paulo,
    Parabéns pela epopéia contra a gripe, me lembrei de minha passagem por MachuPichu em que intentava fazer o Inca Trail mas me pareceu muito trial por causa do mal da altitude-renite-sinusite que peguei previamente em Lima.
    Enfim, creio que valeu a pena!
    Be Good, if you can't, be careful!
    Dennis

    By Anonymous Dennis, at domingo, janeiro 20, 2008 11:09:00 PM  

  • Adorei suas fotos!!! Quero muito fazer viagens como as suas...principalmente conhecer o Egito. Vi que você tem uma foto com um camelo (ou dromedário?!)...Amo camelos!!!
    Abraços

    By Blogger Cheriezinha, at quinta-feira, janeiro 24, 2008 1:18:00 AM  

  • Encontrei o endereço de seu blog em uma comunidade no orkut. Não consegui parar de ler. Como amo viagens e já estive no Egito, relembrei cada momento de dez anos atrás. Parabéns pelo seu blog, por suas viagens, por sua missão e sua fé.
    Abraços.

    By Blogger Ane de Mira, at segunda-feira, janeiro 28, 2008 3:28:00 AM  

  • A quem me desejou melhoras, obrigado. Estou de volta à saude normal e pronto para outra... quero dizer, viagem ao Egito! Quem sabe, se Deus permitir, ao Sinai, onde não tive tempo de ir.
    Obrigado a quem postou comentários aqui, aos que já o fizeram e aos que ainda o farão, honra para mim.

    By Blogger paulofranke, at segunda-feira, janeiro 28, 2008 6:52:00 PM  

  • Parabéns..
    Ótima escolha para um passeio!
    =]

    By Anonymous Michelle, at quinta-feira, fevereiro 14, 2008 2:38:00 PM  

  • Paulo vi teu blog e achei lindo como tudo q fazes, a esplanaçao da viagem bem detalhada, com fotos lindas! PARABÉNS!!! Um abraçao cheio de saudades da amiga de sempre maria dilva.

    By Blogger Vitoria, at quinta-feira, fevereiro 14, 2008 10:00:00 PM  

  • Amigo Paulo, que maravilhosa descrição de sua viagem ao misterioso mundo egípcio.Tbm estive lá,mas fiquei só no Cairo, apreciando as pirâmides e os museus,templos antigos e o maravilhoso rio Nilo onde fizemos um passeio à noite num maravilhoso navio turístico.Tudo foi fantástico.

    By Blogger eulalia, at segunda-feira, março 17, 2008 2:21:00 PM  

  • Paulo visitei seu blog e achei sua viajem ao Egito o máximo. Tenho uma imensa vontade de conhecer esta terra, a qual falam ser tão poderosa, apesar do seu cansaço e gripe acredito que vc aproveitou muito, pois a momentos e viagens em nossas vidas que não há preço.
    Os seus sentimentos e momentos são só seus.Guarde-os em seus coração. Ficou maravilhosa as fotos.
    Parabéns por essa aventura. Marcia .

    By Blogger marcia, at sábado, abril 19, 2008 2:19:00 PM  

  • Oi Paulo, embora não nos conheçamos, visitei seu blog e gostei muito do seu relato de viagem. Está muito objetivo!! gostaria de saber se vc contratou os guias turísticos lá ou aqui no Brasil. E ainda se os transportes públicos são viáveis para mulheres sozinhas.agradeço sua atenção, Daniella

    By Anonymous Anônimo, at domingo, abril 20, 2008 6:51:00 PM  

  • Olá sua viagem me deu coragem para investir no meu sonho, espero que esteja bem e obrigada por partilhar de sua experiência conosco.
    Simone

    By Blogger Simone, at terça-feira, abril 22, 2008 1:24:00 AM  

  • Com 4 anos de atraso, finalmente conheço sua viajem à esse lugar maravilhoso, sonho de muita gente e meu também.
    Nos primeiros comentários já disseram tudo sobre sua deliciósa e significativa viajem. Para não ser redundante, digo e confesso que me diverti muito com seu passeio pelo deserto, rí só em imagina-lo saltando como "pipoca na panela" e sua carinha pousando ao lado do camelo que se perguntava (êle):...vai ou não vai?
    Tenho uma foto deitada na mesma posição, muito parecida com a sua onde diz:...."Enquanto isso, tirei longas siestas ao sabor das suaves ondas do mar" No meu caso, ...."Parem esse marear que eu quero descer!!!" - depois de uma farta ceia de Revellion em alto mar.
    Enfim, grata por dividir conosco esse passeio cultural e repleto de histórias significativas para nós adoradores da Palavra.

    By Blogger Yara, at quarta-feira, junho 06, 2012 10:07:00 PM  

  • Olá Major Paulo, linda experiência e lindas fotos, realmente um sonho de viagem para qualquer pessoa, que Deus continue o abençoando por sua sua viagens ao redor do mundo..Grande Abraço

    By Anonymous Ienneke Barrault, at sexta-feira, outubro 24, 2014 6:49:00 PM  

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