Paulo Franke

04 janeiro, 2008

O velho relógio de nossa casa






Lembro-me do nosso antigo relógio de parede, fabricado por Ansonia Clock Co. NY, na foto acima. Meus avós paternos o adquiriram ou o receberam de presente de casamento e, muitos e muitos anos mais tarde, com a morte de meu avô, veio para a nossa casa.

Todos os membros da família olharam-no diariamente por diversas vezes: ao irmos à escola ou ao trabalho, à igreja ou a algum passeio, em meio às atividades rotineiras ou às especiais, nas horas alegres e nas horas tristes. Seu badalar e o seu tique-taque, no entanto, nem sempre eram percebidos em meio aos ruídos do dia-a-dia de uma família grande e barulhenta.

Nosso velho relógio, indispensável em outros tempos, é hoje uma relíquia familiar a mais. Um dia todos os relógios do mundo, do Big Ben ao Rolex e aos de marca inferiores, não terão mais propósito ou utilidade. Indispensáveis nesta vida, serão perfeitamente dispensáveis na vida eterna. Anos, meses, semanas, dias, horas, minutos ou segundos serão lembranças terrenas, ultrapassadas.

Recordo-me de certa ocasião quando, à mesa, meu pai filosofou: "Um dia o nosso lar não mais existirá como hoje o temos: tudo pertencerá ao passado." Minha mãe tentou esconder as lágrimas retirando-se da mesa, meus irmãos ficaram em silêncio e eu tentei entender o significado de suas palavras que soavam naquele tempo tão remotas. O velho relógio - na parede da nossa bela sala de jantar em estilo colonial germânico - deu as suas voltas quilométricas e o que meu pai falara cumpriu-se no vai-vem das gerações: o nosso primeiro lar desapareceu, sendo multiplicado por cinco outros, os de meus quatro irmãos e o meu.

Muitos famílias pouco ou nenhum valor dão ao momento presente, à volta da mesa, às conversas sérias, aos bate-papos sem profundidade, às brincadeiras ou mesmo às briguinhas que logo são esquecidas. Esses momentos passarão inevitavelmente, daí a importância de vivê-los intensamente, porque o relógio da vida não para. Viver intensamente, no caso, significa amar-se, valorizar-se, respeitar-se e alegrar-se mutuamente. Então, quando o tempo desfizer o nosso primeiro lar nenhum sentimento de débito ou omissão pairará com relacão aos nossos queridos, somente o de gratidão pela lembrança dos velhos e bons tempos em casa!

Console-nos, portanto, a certeza de que na eternidade não haverá palavras tais como ontem, hoje ou amanhã, mas somente a palavra sempre.
.

"Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio" (Salmo 90:12).

(Uma das meditações de meu livro "Edificação Diária")


Gosto de Londres. Na foto de 1992, diante das Casas do Parlamento e do Big Ben.
Em tempo...
- Anneli e eu gostamos de relógios como decoração, e há pouco tempo contamos 14 relógios em nossa casa, dos mais variados estilos!! Nossa netinha mais velha um dia dormiu em nossa casa e a certa altura, não podendo conciliar o sono, perguntamos a razão, ao que nos respondeu que era pelos variados e descompassados tique-taques dos nossos relógios. Diante disso, paramos de dar corda em alguns ou retiramos as pilhas de outros. Brinquei com ela mais tarde que agora a nossa casa não era mais igual à do Pinochio! Foi um momento familiar gostoso com nossa querida netinha mais velha, que gosta muito de visitar a casa dos avós, não podendo vir mais vezes pelo fato de morar no norte da Finlândia, indo com seus pais muito em breve viver na Suécia.
- Tendo recebido um interessante cartão, Anneli adaptou seus dizeres a Gálatas 5:22-23, e o resultado é este:
O fruto
do Espírito é:
12 meses de amor,
52 semanas de alegria,
365 dias de paz e paciência,
8.760 horas de bondade e retidão,
525.600 minutos de fidelidade e mansidão,
31.536.000 segundos de domínio próprio.
+++++++++++

E são estes, portanto, os votos de um feliz Ano Novo aos leitores do meu blog!

3 Comments:

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    Tatiana disse...
    Lindo tópico Paulo,adorei,me emocionei.Que Deus te ilumine sempre com o dom da palavra.

    Domingo, Janeiro 06, 2008 11:05:00 AM

    By Blogger paulofranke, at quinta-feira, janeiro 17, 2008 4:50:00 PM  

  • Caro Paulo:
    Este foi o texto que lí ao acaso (escolhido aleatoriamente dentre os que voce escreve aqui), no meu trabalho, cuja "consequência" descrevi para Deborah.
    Voce escreve muito bem, de um jeito leve e claro, com emoção, com o coração.
    Este texto me remeteu à minha infância também, quando eu tinha meus avós, a quem eu amava muito, sempre achando que eles jamais teriam o direito de um dia me deixar. Eu era uma criança muito feliz ao lado deles e eles tinham uma paciência infinita comigo.
    As vezes pensamos que nada mais acontece de diferente no dia-a-dia, mas quando olhamos para tras (e nem é necessário irmos até a infância para isso), vemos o quanto somos ou fomos amados e felizes, vivendo uma vida privilegiada entre nossos entes queridos. E por uma espécie de egoísmo, nem sempre damos o devido valor.
    Realmente tudo passa. Me fez muito bem ler este seu texto pois me mostra que SEMPRE temos mil oportunidades para criamos novos laços e então, compreendermos melhor os outros, bem como aprender novos valores. Consequentemente, isso nos faz crescer e amar ainda mais. E é assim que a vida tem realmente sentido, não importanto o tempo que tenhamos vivido (parece que sempre preciso de alguem para me lembrar disso e assim manter minha mente aberta para a vida - e desta vez o "alguém" foi voce).
    Um grande abraço, com desejo de muitas felicidades,
    Karin

    By Anonymous Karin Brigitte Fehsenfeld, at domingo, janeiro 20, 2008 9:01:00 PM  

  • Paulo amei! ah,o tique-taque...doces férias na minha infancia em Uberaba...
    ...Os laços de hoje não serão os mesmos de amanhã (estou pensativa até agora)...
    O tempo não pára.(concordo)
    O que existe é priorizar algo.
    O egoísmo e a falta de tempo caminham juntas,são companheiras.
    Porque o tempo nunca pára...
    Abraços

    By Blogger Mila, at terça-feira, fevereiro 19, 2008 12:48:00 AM  

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