Paulo Franke

03 novembro, 2011

O jornal que mudou o rumo de minha vida

Um complemento à postagem em três partes, "Cidades onde servi a Deus no Exército de Salvação".
Esta postagem é um complemento à recente "Cidades onde servi a Deus no Exército de Salvação".




Minha longa história ligada ao jornal "Brado de Guerra - contra todo o mal", órgão oficial do Exército de Salvação - hoje revista RUMO - teve início em uma noite de sábado na exata mesa da foto, do Bavária Bar, em Pelotas-RS. Bebia whisky com novos amigos, sendo introduzido ao vício do álcool com rapidez. Assim, no Seu grande amor, Deus também agiu com rapidez para tirar-me dele. Um oficial salvacionista inglês, que trabalhava em minha cidade - e que fazia o trabalho que eu faria nas próximas décadas - aproximou-se e ofereceu-me um exemplar do jornal, causando com aquele gesto e sua presença em um bar tremendo impacto em minha vida jovem tão carente espiritualmente.




Ainda que embriagado, respeitosamente adquiri o jornal que guardo até hoje. Quase se esfacelando, ao escaneá-lo deixo aparecer um jovem bebendo em um artigo sobre os males do alcoolismo, publicado no mesmo jornal...

Tendo ingressado no ES meses depois, vender o jornal nos bares e restaurantes com um grupo tornou-se uma constante. Era a minha vez de encontrar conhecidos boquiabertos ao saberem que eu me tornara um salvacionista! Em 1964, quando fui estudar no nosso seminário em São Paulo, na primeira semana com um colega fazíamos "pente fino" visitando bares e restaurantes com o jornal na longa rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros. Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, Santo Amaro e outras grandes avenidas foram meu "distrito".

Comissionado como oficial em 1966, Joinville tornou-se meu novo distrito de venda do jornal, rolando cerveja na maioria dos locais onde o vendia. Na segunda nomeação, Campos-RJ, o distrito era insuficiente e viajávamos de quando em quando ao Rio de Janeiro para o "ministério do Brado de Guerra". Então fui nomeado para Neves-São Gonçalo com distritos no Leblon, no Catete e de vez em quando no centro do Rio de Janeiro.

Foram muitas as cidades e muitas as experiências, algumas que narro ao apresentar capas dos jornais dos quais, de 1982-1985 e 1995-1999, fui o Redator. O jornal que mudara o rumo de minha vida, e o qual eu vendera aos milhares de exemplares no início da minha carreira como oficial, nos anos que menciono em dois termos passou a ser a minha nomeação, isto é, passei a prepará-lo tendo em mente os milhares de pessoas nos bares e restaurantes, muitas vezes afogando suas mágoas na bebida (sem saber que elas sabem nadar...).




Morria Elis Regina e o assunto foi para o Brado, em artigo escrito por uma colega aposentada.

E nas recordacões, uma quando entrei em uma fina churrascaria e vi uma mesa enorme e a cantora Angela Maria à ponta da mesa. Quando me aproximei, dois homens levantaram-se bruscamente para barrar-me. Angela, no entanto, chamou-me: "Moço, eu quero o seu jornal!" Deixando todos boquiabertos, abriu sua bolsa e deu-me uma nota grande. Agradeci e saí, lembrando-me de que antes de entrar para o meio artístico, Angela, de família crente, cantava no coral da Igreja Batista. Minha presença, quem sabe na comemoração de seu aniversário, evocara-lhe recordações de tempos passados?



A visita de Yoko Ono e Sean ao orfanato "Strawberry Field", que John Lennon visitava quando menino (veja postagem respectiva no Índice) virou capa do jornal.

E nas recordações de vendê-lo por muitos anos, os artistas que encontrei: Yoná Magalhães e Carlos Alberto naquele restaurante do Leblon, em 1969. Em outra mesa, Claudio Marzo, e o interessante: estavam lá a cada sábado praticamente e, certos de que eu apareceria, já tinham o dinheiro preparado e um sorriso de simpatia. No ruidoso bar "Garota de Ipanema" encontrava Vinícius de Moraes, Tom Jobim e outros de sua turma. A garota de Ipanema passar fora motivo de imensa alegria... mas o vendedor do jornal passar causava-lhes nítido desprazer, eu sabia pelas caras que me faziam. Mesmo assim, teimava em lá passar. Quem sabe a minha presença, uniformizado, não tocaria alguma vida que como eu anos antes, tentava afogar as mágoas no álcool? E quando me batia o desânimo, duas coisas me ajudavam: a contemplação do Cristo de braços abertos no Corcovado, que eu via a cada esquina ao percorrer o Leblon do início ao fim... e lembrar-me de que naquele momento outros colegas no Brasil inteiro, e em muitos países do mundo, estavam passando pela mesma experiência minha: angariar fundos para a obra, mas também testemunhar de Cristo em ambientes que igrejas não alcançavam. Ajudava-me o uso do uniforme, assim não era eu ali, mas um representante do ES. A companhia ocasional de um jovem nesse ministério era de grande ajuda no Rio de Janeiro pois muitas vezes o fardo pesado nesse ministério era enfrentá-lo sozinho. Minha memória, que graças a Deus considero muito boa, deve falhar em lembrar tantos outros artistas que encontrei ou que não reconheci, daí naturalmente não mencioná-los.



Nos anos 90, por ocasião do sucesso estrondoso do filme "Titanic", de James Cameron, como redator enfoquei o tema Titanic, surpreso com os links do naufrágio do grande transatlântico com o próprio Exército de Salvação na Inglaterra, EUA e mesmo histórias de passageiros da Suécia e da Finlândia, fatos que eu transcrevia do The War Cry inglês (veja postagem "O Exército de Salvação e o Titanic" no Índice).

E nas recordações, minha inicial timidez ao entrar em grandes restaurantes ou churrascarias e enfrentar os que se voltavam para olhar-me. Nem tudo era respeito e elogio à minha missão, mas também zombaria e palavras rudes como "dê o fora!", além de críticas ácidas ao Evangelho que eu também representava. Às vezes era convidado a sentar à mesa e conversar ou aconselhar pessoas desesperadas. Ou então, conversar à beira de um balcão de bar, tendo de enfrentar o hálito de álcool de pessoas embriagadas. Quantas vezes orei com elas, pedindo que Deus as ajudasse a transformar suas vidas!


Em um número do Dia dos Pais, usei de capa Otto Frank com suas filhas Anne e Margot.

E nas recordacões, ser citado naquele ano de 1969 na famosa revista "Pasquim", por entrar a cada sábado no bar do mesmo nome, no início do Leblon. E no centro do Rio, na mesma mesa de sempre, encontrava Pixinguinha, que a cada vez resmungava pela minha aproximação. E Anselmo Duarte, com seu sorriso simpático ao ouvir que eu assistia aos seus filmes da Atlântida na década de 50. Hebe Camargo teceu grandes elogios ao ES quando a encontrei em uma churrascaria de Porto Alegre. E entrar no Mercado da capital gaúcha em um sábado à noite era um desafio à coragem. Na zona de prostituição na cidade portuária de Rio Grande encontrava muitos homens estrangeiros que reconheciam o meu uniforme de seus países. Sentiria algum deles vergonha de eu encontrar-lhe naquele antro? Na mesma cidade, obtive uma rara permissão de ingressar a bordo de navios estrangeiros e oferecer-lhes exemplares em inglês de nossa revista: oportunidade de angariar fundo$ mas também de conversar enquanto tomava café com muitos homens Outro pensamento que soava como alavanca era pensar: "Eu jamais encontraria essa gente se não fosse através deste ministério difícil e agressivo!"



Acima, o primeiro exemplar do nosso jornal no Brasil, publicado no mesmo ano do início da obra, 1923. Vendi nosso jornal a muitos políticos quando trabalhei em Brasília-DF, mas só me recordo do gaúcho Andreazza. Lá, enchia uma Kombi de jovens para ajudar-me e fazia o trajeto que passava pelos Ministérios, Palácio da Alvorada, Churrascaria do Lago, Hotel Nacional etc. Ver Brasília iluminada era um espetáculo cuja lembrança perdura. Eu também tinha um "ministério", pensava, algo como ser louco para Cristo, causando às pessoas um misto de admiração, respeito, mas também de quase repulsa pelos "inimigos da cruz". Em cada caso, o fato de causar
"impacto-pela-presença", eu sabia, era uma realidade típica desse ministério corajoso mas que também nos ajudava na manutenção da obra.

Nos anos em que estive envolvido na Redação não visitei bares e restaurantes, finos ou pobres, com o jornal, mas as lembranças dos milhares de contatos feitos ajudaram-me muito na escolha de artigos a serem publicados ou mesmo ao escrevê-los.



Com nossa transferência para a Finlândia, em agosto de 1999, nomeados para o tradicional Corpo do Templo, de língua sueca, por seis anos o ministério de difusão da Palavra continuou, com a mudança em alguns pontos: a fita do meu quépe foi trocada para uma do Exército de Salvação em idioma sueco, Frälsningsarmén; não mais vendemos nossa publicação em bares e restaurantes como se fazia outrora no Brasil, mas no Stockmann, a maior loja de departamentos da Escandinávia; o nome Brado de Guerra literalmente significa Sotahuuto em finlandês e Krigsropet em sueco; por ser a obra muito conhecida no país, é muito ajudada pelo povo, povo que tem os seus defeitos, naturalmente, mas que é educado para com os salvacionistas, a ponto de praticamente não me lembrar de uma zombaria sequer nestes doze anos em que aqui desenvolvi este ministério, geralmente duas vezes por semana. Ajudá-los socialmente é outra história a qual é melhor omitir (com muitas exceções, claro!)...



Adaptei-me ao cofrinho na mão e gostei muito de usar o quépe salvacionista, um atestado de que, mesmo sendo estrangeiro, estava fazendo um trabalho o qual muitos finlandeses recusam-se a fazer, preferindo ajudar financeiramente do que "colocar a mão na massa".


Abordei em uma postagem - ver Índice - o dia quando reconheci Victoria Chaplin, filha do famoso cômico, comprando perfume nesta grande loja. Aproximei-me dela, que fazia um show circence em um teatro local, assisti ao seu espetáculo e fui fotografado com ela. A foto e a minha reportagem foram publicadas na revista que carrego na mão, mostrando o meu "grande feito"! O telefone público atrás de mim tem uma história. Certa vez, enquanto vendia a revista neste exato local, Anneli ouviu uma pessoa falar português do Brasil. Terminada a ligação, surpreendeu-a dizendo que entendera tudo o que ela falara. Esse foi praticamente o início do Encontro de Brasileiros e Amigos do Brasil, encontro cultural que fizemos durante 10 anos na capital Helsinki. Uma famosa atriz do teatro finlandês, cuja avó era salvacionista, contava-me no Stockmann seus problemas e pedia-me orar por sua filha, uma prova da eficácia deste ministério que "leva a igreja às pessoas de todas as classes sociais em vez de esperar que elas venham à igreja".



E o PF que foi ganho para o ES através do seu jornal, foi capa da edição especial do centenário da revista na Finlândia. Minha querida esposa tem suas próprias histórias dos anos em que vendeu o jornal no Brasil - incluindo o cantar com outros salvacionistas nas barcas da baía de Guanabara - e agora na Finlândia, sendo que continua ativa neste ministério uma vez que, por termos cinco anos de diferença na idade, não se aposentou comigo. Há menos de um mês, encerrei este ministério que marcou tanto minha vida - e que no passado mudou o seu rumo. Quando uma senhora aproximou-se para dar sua oferta e receber a revista, em um hipermercado local, contei-lhe que aquele momento era histórico, pois encerrava um longo ministério que desenvolvi na minha longa carreira salvacionista de 42 anos! Ela naturalmente gostou de saber de que ela representava essa última pessoa. Sim, a última de um número que só saberei um dia na presença de Deus, quem sabe acessando os computadores celestiais. Amém.

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Certamente a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as cousas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as cousas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as cousas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se glorie na presença de Deus.

1 Coríntios 1:18 e 26 a 29.

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L i n k


Quando, como e por que ingressei no ES.



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6 Comments:

  • Yeah, Paulo. Eu vendi o Brado muitas vezes e a sua experiencia confirmou o que eu sentia naquela epoca: o dinheiro adquirido nessa venda nem chegava perto da influencia que o Brado tinha na vida daqueles que liam esse jornal que a minha falecida mae tambem editou por um tempo antes de voce.
    Albert Heinzle
    Flórida - EUA

    By Blogger paulofranke, at sexta-feira, novembro 04, 2011 5:48:00 PM  

  • Franke, estou nesta lista, pois eu tambem vendi o Brado de Guerra. Como o Corpo de Livramento era na fronteira com o Uruguai, tínhamos o privilégio de vendê-lo no Brasil e no outro lado da fronteira, todos os sábados à noite. Foram experiências gloriosas!

    Pr. Ademir Martins
    São Leopoldo-RS

    By Blogger paulofranke, at sexta-feira, novembro 04, 2011 8:21:00 PM  

  • Obrigada por me fazer sentir saudade do Exército de Salvação. Você é um exemplo de vida, superação e companheirismo! Aliás o melhor historiador vivo que conheço! Deus seja louvado por sua vida e ministério, cujos frutos estão por toda parte, inclusive teclando para você agora!

    Obrigada por você existir e ter-se gastado em prol do reino!

    Shalom! Toda raba!

    Benedita

    By Blogger paulofranke, at sexta-feira, novembro 04, 2011 8:44:00 PM  

  • Hé Paulo! Você sempre nos "cutucando" e emocionando!
    Eu também vendi!
    Que trabalho árduo éra o de vender o Brado de Guerra! Confesso que nunca fui timida ao abordar estranhos, principalmente porque sabía qual éra a minha missão, fazía com prazer! Eu estava evangelizando, éra este o meu propósito.
    Para mulheres, éra bem mais fácil, para os homens...nem tanto! Fui muito humilhada, todos passamos por isso!
    Quando jovem e solteira, costumava ouvir:...(entre muitas gracinhas) "quem disse que nesse exercito só tem canhão???... mas depois de casada..."vamos pessoal, vamos ajudar a grávida"(risos por todo bar)mesmo em estado avançado, não deixava de cumprir com minha missão. Lembro-me que em Santos, ao olhar toda a orla, orava para que o Senhor me desse forças para chegar até o final, e lá ía noite a dentro, até a madrugada.
    Não existe lamento em minhas palavras, fui feliz no pouco tempo que durou minha missão, faría tudo de novo.
    Vou parar por aqui pois estou me emocionando. Obrigada Paulo, você nos faz viver e reviver!
    Yara

    By Blogger Yara, at sexta-feira, novembro 04, 2011 9:55:00 PM  

  • Muito interessante o post, Paulo.
    Cumprimentos cinéfilos

    O Falcão Maltês

    By Blogger ANTONIO NAHUD JÚNIOR, at sábado, novembro 05, 2011 11:16:00 PM  

  • MUITO BOM. SOU FUNCIONÁRIA, DE UMA CRECHE (NUDI LAR DAS FLORES) EM SUZANO -SP. TENHO GRANDE ADMIRAÇÃO PELO EXERCITO DE SALVAÇÃO, ESTOU PROCURANDO CONHECER MAIS OS FUNDAMENTOS E TRABALHOS DO MESMO.

    By Blogger Elizete zuza ferreira dos santos, at sexta-feira, novembro 09, 2012 1:37:00 AM  

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